sexta-feira, julho 17, 2009

Férias verão 2009: 6ª etapa de Eysies a Moissac em autocaravana


6ª noite Moissac

Eram já umas sete horas ligeiramente passadas, quando a passarada reagiu ao torpor sonolento dos viajantes da semovente com trinados de alerta. Pois já eram horas de levantar e preparar uma jornada de turista não acidental!

De facto o calendário de tarefas era pesado…início da visita ao Museu Nacional da Pré História que abria as 9.30h, depois inscrição no passeio do comboio turístico com inicio as 11h, para depois ainda movermo-nos para outro local de predilecção do Homem de Cro-Magnon... em La Roque de San Christophe…

De olhos bem abertos lá fomos, e pelos dois saíram a nota rosinha de 10 euros para o Museu Nacional, mais outra rosinha de 10 euros para o trem turístico, e mais 14 euros para a gruta de San Christophe…mas só se pode acrescentar que valeu muitíssimo a pena, e que é de voltar para ver outras grutas e outros locais de reconstituição histórica, nesta riquíssima zona com presença humana desde o Paleolítico de há mais de 30.000 anos, em especial no Vale doVézére!



Para saber mais ainda, é ver na internet em:
www.tourisme-terredecromagnon.com
www.musee-prehistoire-eysies.fr
http://eyzies.monuments-nationaux.fr/fr/?fl_r=2

Pela nossa parte nada podemos acrescentar senão a percepção do universal da identificação maravilhada com a história da Humanidade de que fazemos parte. Tudo muito profissional, muito exemplar, muito pedagógico, e por isso mesmo fascinante. A vontade de voltar, e ficar por aqueles locais pelo menos uma semana, conta com uma carga magnética impressionante. Vale a pena, recomenda-se a todos!

Pois a própria volta turística do comboio tem o mérito da passagem pelo abrigo do Cro Magnon (descoberto nas obras de caminho de ferro) ou da Igreja de Tayac fortificada, etc. O local de La Roque Saint Christophe e o seu boulevard da Humanidade é de não perder absolutamente. Ficam as fotos que dão uma pálida ideia da grandiosidade destes locais e onde tão bem são acolhidos os autocaravanistas.



Ora depois destes três motivos de interesse, rumamos a San Cirq Lapopie, e a meio caminho, já depois e passada Sarlat la Caneda, em Vitrac, à beira rio, do Lot, numa esplanda de um clube de kayaks tivemos uma refeição fresca, agradável e pelo preço aceitável de 22 euros, com vista para os "sportifs" a fazerem canoagem..

A viagem é espectacular numa estrada que corre ao lado do Lot, e que foi escavada na montanha quase a pique e com alturas médias baixas….atenção às capucines, pois há trajectos quase em túnel de 2,90m de altura…há que evitar os cruzamentos e seguir mesmo pelo meio da estrada.

San Cirq Lapopie é um espectacular ponto de interesse também, num alto culminado com as ruínas de um castelo sobranceiro à catedral decorada por dois deltas luminosos (triângulos resplandecentes, ou de esplendor) com casario medieval de respeito…e claro está com malvaíscos floridos em todas as esquinas. Os panoramas são deslumbrantes e impressivos, e quem queira por lá pernoitar, tem um parque de campismo junto ao rio.
Anotamos com estranheza uma escultura moderna dentro da Igreja, uma arvore seca com rodas de bicicleta cujos raios tinham escritos inúmeros pensamentos pseudo filosóficos comuns, decerto uma obra de arte muito “avant garde”…..





Regressámos pelo caminho inverso feito à ida, pois o nosso objectivo era Moissac, para ir ver a Ponte Canal, de que já tínhamos em viagem anterior encontrado um interessante exemplo em Briare (relato neste blog).

Lá chegámos e bem, à área de autocaravanas junto à margem do rio, sinalizada e já frequentada por mais de meia dúzia de autocaravanistas. Fácil de encontrar pois fica ao lado do Hotel do Moulin (antiga moagem transformada em Hotel) mesmo nas “berges” (margens) do rio..e que tem estação de serviços Flot Bleu.

O jantar foi na semovente e agradável como sempre: vista de rio, e os espargos, os patés, o queijo com a baguette, as bebidas e o café final, permitiam que quem se sente bem consigo próprio resultasse de se estar de bem com a vida e com os outros, em especial o nosso(a) mais próximo.

Depois, com um bom tempo e temperatura amena, foi a passeata pelas margens do rio e do canal interior, cujas margens estavam pejadas de embarcações habitadas. Um sossego, e uma qualidade de vida que se atinge sem luxos, nem mortificações.




O sono veio compensar o dispêndio de energias e atenções durante o dia, provavelmente o mais intenso e compensador intelectual e culturalmente de toda a viagem, e impossível de alcançar sem ser nesta formula de turismo itinerante de autocaravana com a consorte como co-piloto.

quinta-feira, julho 16, 2009

Férias verão 2009:5ªetape da Ilha de Ré a Les Eysies de Tayac


5ª Noite Les Eysies de Tayac

Ribombar de trovoada e relampejar foram os matutinos despertadores, e insistentes. A chuva forte só ajudava ao cenário de tempestade. Era sinal de partida mais para o centro do Pais, pois jornais e telejornais e rádio eram uniformes:
"Orages partout!"

Pois foi então levantar ferro (do travão de mão) depois de mais um banho nos chuveiros locais, e o pequeno-almoço da ordem. Fazer a toilette da semovente é que não foi possível, estava entupido o escoadouro das águas cinzentas.

Seguimos então para Saintes, com aideai de ver algo da sua monumentalidade romana, mas a chuva continuava a aprisionar-nos aos bancos da autocaravana. Estavamos sequestrados pelo Clima inclemente! Passamos pois por Angoulême, e além da chuva dissuasora de mais uma paragem apetecida, esta foi adiada, por obras e mais obras multiplicavam dificuldades de estacionamento e orientação.

Seguimos então para Ribeirac, por estradas municipais até que, ao fim de cerca de 6,30h de chuva contínua, surgiu aquela vila esperada, e com sol…pois foi decisão fácil: almoçar na esplanada um prato do dia, salada Midi com camarão, salmão, azeitonas, alface, pêra abacate mais sobremesa, e bebidas para dois…e nem chegou à azulinha foram 18,20€!

Pouco depois Bergerac, e abastecimento no Carrefour de gasóleo, a 0.97…média feita, 9,1 L/100Km ao longo de um percurso de 1.029Km sem reabastecer desde Espanha.

Satisfeito este desiderato, entrada na área de autocaravanas de Bergerac mesmo junto ao rio e com excelentes vistas…havia lugar, era gratuita, portanto o local ideal para fazer a toilette completa, reenchimento de água, e despejos, e deixar a semovente repousar enquanto, agora com bom tempo, irmos deambular ao cais fluvial, depois da ponte, ao museu do vinho e do transporte fluvial (5€ as duas entradas) e ainda flanar um pouco pelo centro onde teria lendariamente vivido o espadachim de nariz protuberante -o Cyrano de Bergerac!




Estava a aproximar-se o termo do dia, e assim mais uns poucos de km até Les Eysies, a capital da pré história…Logo à chegada esta bem assinalada a área de AC…junto ao centro, perto do rio, e para lá nos dirigimos, local de eleição já com várias outras semoventes paradas em terrenos relvados, e com buxos a servirem de cortinados vegetais de alguma privacidade. Cinco estrelas de ambiente, localização, serviços (sanitários de apoio) e preço, 4 euros por noite!




Quem pode exigir mais? Ou melhor? Nem em França nem em Portugal! Pois por lá ficamos, mas as entradas demueseus já estavam fechadas e dos locais de interesse, só possível o passeio com céu azul e luminosidade excelente, pelos exteriores, e jantar, que foi na AC, mais uma vez, depois o recolher informação no posto de turismo para no dia seguinte com tempo e método irmos à parte cultural desta viagem.

Foi pois com bom tempo que mais uma vez voltámos ao sono dos justos e descansados, com as janelas abertas para aliviar o calor que se renovava. Estava concluída a 5ª etapa de viagem, aos dias 2 de Julho de 2009.

quarta-feira, julho 15, 2009

Férias de verão 2009: 4ª etape entre Soulac s/ Mer e Ilha de Ré, Rivedoux


4ª noite Ilha de Ré

Finalmente dia 1 do mês de Julho, início da época balnear e de ferias em França…de começar a temer os “bouchons” e em geral a pressão de turistas internos…por isso logo ao pequeno almoço assentou-se de seguida a paragem na Ilha de Ré, mais um local de veneração do estratega de construções militares Vauban, autor do fortim de St Martin en Ré.

O acordar pelas 7h e logo que possível já estávamos no cais de embarque da Pointe de Grave para embarcar no ferry que nos levaria a Royan por cerca de quatro notas azulinhas. E com espaço livre no “bac”, e sem fila de espera. Viagem serena pelo estuário com o farol de Courdoan no horizonte, e depois, feita a travessia, seguimos a estrada do litoral pela “corniche”,junto das armações de pescadores de redes quadriláteras suspensas de casinhotos alpendorados nos rochedos das falésias. Tudo a remeter para imagens de memória de estampas chinesas.




Em pouco tempo Rochefort estava já nas placas de sinalização, e aí, atentos às informações do guia turístico Michelin foi procurar orientação para o Pont Transbordeur do Martrou, sem se saber muito bem o que isso significava! Quem quiser saber mais pois tem bom remédio, está tudo em:
http://www.paysrochefortais.fr/decouvrir/manifestations/expo-transbordeurs

Mas deixamos aqui a nossa descrição: imagine-se um pórtico sustentado nas extremidades por duas mini torres Eiffel, e com um tabuleiro e plataforma suspensa, onde se colocam pessoas, viaturas, ou animais…pois bem a travessia do rio é feita pelo deslizar dessa plataforma suspensa dos rails do pórtico…que assim procede ao transbordo do que transporta…vantagem…não perturba a situação fluvial!

Esta data de 1897 e aparentemente será a ultima em funcionamento em França, e uma das oito em todo o mundo, embora agora só reaberta desde 1994, para pessoas e bicicletas…tem 66 metros de altura, a plataforma do pórtico tem 175 metros e fica a 50 metros de altura do nível das águas, para transpor os 150 metros de distância entre as duas margens….

Pois lá fomos após um pequeno desvio antes mesmo do viaduto da Charente e aproveitámos para visitar a exposição monográfica local, tirar as fotos da praxe, meditar sobre a engenharia civil e seguir caminho! Quem queira lá ir e ate fazer a travessia pode fazê-lo de Abril a Setembro.

Um pouco mais de estrada e estávamos já em cima da ponte para a Ilha de Ré depois de contornar La Rochelle. E soltaram-se mais uns 16,50€ de portagem. Do lado de lá e seguindo o guia das áreas de autocaravanas virámos logo à direita para Rivedoux e entrámos de imediato na área exterior ao Camping Le Platini, frente ao mar.

O estacionamento é gratuito, e só se paga a pernoita que nos ficou por 9 euros, mas com acesso aos sanitários e duches quer do Camping, quer aos que existem no seu exterior. Coordenadas GPS aqui ficam:
N- 46º 09´33,63´´
O- 1º 16´ 17,23´´

A nossa opção foi pois almoçar na semovente ali mesmo debaixo de uma arvore de sombra larga e com vista de mar … e só depois com calma fazer uma volta completa à Ilha, passando pela capital, onde a área de autocaravanas estava cheia nos seus curtos 6 lugares, mas onde se parou o tempo indispensável para as fotos possíveis, depois Ars en Ré, e a sua igreja de torre pontiaguda, a zona das salinas, e o Farol das Baleias, a Côte Sauvage com mais uma área de AC mas isolada e com lugares livres e pagos.
Cruzamo-nos com muitos ciclistas e com vento, e não deu para tomar banho…mas deu para espiar as praias em maré vazia propícia à pesca de crustáceos a pé…




Curiosidades…a falta de indicação kilométrica de distâncias, senão nas placas para bicicletas, e a multitude de flores de malvaísco floridas por todos os lados e de todas as cores.

O jantar outra vez na semovente foi de luxo…camarões cozidos, azeitonas, paté basco, baguette de campagne, bifes de perú, vinho, cerveja, e antes a consorte teve o seu merecido gin tónico…

Excelente vistas ao entardecer durante o jantar, sempre com vistas para o mar, o esmoer foi ate à vila de Rivedoux para uma sobremesa em caminho, e depois o sono, sobressaltado embora, com uma estrondosa trovoada, com coriscos, relâmpagos e trovões com chuva forte que começou pela madrugada.

terça-feira, julho 14, 2009

Ferias de verão 2009: 3ª etape entre St Pée de Nivelle e Soulac s/Mer

3ª noite Soulac s/Mer

Acordamos à hora habitual das sete horas matinais, sem sobressalto, e depois rearranjados, municiados, desfeitos do lixo num conjunto de complexos recipientes bestializados para lixo, seguiu-se o pagamento na maquina super automática do parque de autocaravanas, com o cartão de credito, numa sofisticação nunca vista neste tipo de equipamentos, e foram-se quatro euritos pelas quase 12h de estadia…Preço justo convenhamos, para dormir em segurança, num quadro agradável e de janelas abertas…

A meta seguinte era subir o Médoc, ir ver as míticas capitais do vinho de Bordéus Médoc (de Chateau Lafitte, de Mouton Rotschild e Chateau Margaux). Já em anos anteriores tínhamos estado nas vinhas de Bordéus, mais a sul, em Saint Emillion, pois agora era de esquadrinhar o norte de Bordéus.

A opção foi antes de tudo rumar à margem esquerda do Garonne, para depois cruzar em direcção a Cadillac…e assim foi, em velocidade contida de cruzeiro, sempre pelas estradas nacionais, rumando primeiro para Bayonne, depois para Dax, a seguir para Mont Marsan e finalmente Langon, para cruzar pela ponte o rio…e eis-nos em Cadillac frente ás muralhas, e sob um sol impiedoso.

A semovente ficou logo ali num terreiro amplo, gratuito, e sem problemas, frente à entrada principal do torreão medieval, e nós a subir a encosta mais íngreme, pela soleira do pino do astro principal. Lá fomos até a Igreja, fechada, e por isso depois de vislumbrar ao longe o Castelo, opção unânime e sem declaração de voto…vamos mas é almoçar, e numa esplanada!

Ficamos frente à Mairie, que tem por debaixo um recinto amplo e vazio que talvez fosse em tempos um mercado coberto (?) e ali mesmo, com esplanada na rua, sob toldos, numa “brasserie” abancámos. Nada de especial, mas tudo correcto, e os preços decentes.

Feito o repasto, enveredou-se pela antiga “ruta” nº 10 assim chamada pelos emigrantes dos anos 60/70 quando percorriam, os que não seguiam de comboio, pela route national nº10, até aos arredores de Paris, às bidonvilles. Chegados aos limites de Bordéus, foi seguir o periférico direcção aeroporto (Merignac) saída 7….e rumar a Castelnau du Médoc, St. Laurent, Chateau Margaux (impressionante) até Paulliac… aqui inflectiu-se para o rio, para ver os cais, e a seguir tínhamos à disposição os míticos Chateaux Laffitte e Mouton Rotschild, dos Barões de Rotschild...… Ver mais em:




Nos dois casos, sem problema o estacionamento da semovente, num caso tudo fechado…o Lafitte Rotschild, no outro, entrada franca para Mouton Rotschild. Preços upa, upa, a partir de cerca de 50€ a garrafa, mas a justificar pelo menos pelo ambiente, os arranjos dos edifícios, o bem cuidado dos jardins, o pessoal numeroso e diligente. Mesmo nos supermercados, e sem marcas de referência, não é fácil encontrar vinhos com a denominação de origem Médoc por menos de 10 euros, e recentes.

Descansados os olhos, sem se ter arriscado as provas de vinho àquela hora, e pagas, a viagem seguiu em direcção a ponta de Grave, pois o objectivo era cruzar por via fluvial o Garonne, fronteiro à foz, face ao farol de Cordouan, classificado monumento nacional.

A ideia, para além de repetir uma boa experiência dos tempos do caravanismo, era de escolher a pernoita…ou em Soulac, ou em Verdon, ambas com área para autocaravanas. As distâncias eram pequenas, a hora permitia, e assim fomos aos dois lados, e optou-se por Souliac, menos devassada, e permitindo visitar antes a vila e beber um copo nos bares de praia.

Em boa hora foi feita a escolha. Primeiro, porque tivemos oportunidade de visitar a Igreja românica, de Nossa Senhora do fim das Terras que esteve vários anos soterrada pelos movimentos das dunas! Depois, porque as ruas de peões de Soulac são bem simpáticas, e finalmente, porque encontrei um exemplar único da recente edição do Petit Futé sobre circuitos em autocaravana, que até então tinha procurado insistentemente mas debalde!

Ainda fomos pois à praia de Soulac, frente a área de autocaravanas, muito ampla, enorme mesmo, por detrás das dunas e com apoios de estação de serviço gratuitos. Apesar da indicação do posto de turismo não foi fácil encontrar este porto de abrigo para os autocaravanistas, que não consta aliás, dos guias em nosso poder.

Aqui ficam pois as coordenadas GPS:
N- 45º 31´ 32.35´´
O- 1º 06´ 52.21´´

Ao longo do cair da tarde, gerou-se algum frescor, por isso a praia, embora convidativa à distância, ao perto mostrou-se um tanto desanimadora tantas eram as alforrecas de todos os tamanhos que flutuavam e com aspecto urticante…não deu para arriscar.

Antes, um jantar na semovente em pena luminosidade do dia, ao lado de muitos outros AC, de umas belíssimas alcachofras frescas e gigantes, que depois de cozidas, foram comidas três em molho vinaigraite. Seguiu-se a baguette com queijo tipo camembert, vinho Riesling, espreitadela nas notícias na televisão…o horror da queda do avião nas Comores.




Bem, para esmoer a janta, foi conversar andando e a ver as vistas, fomos ver o por do sol nas dunas…e descobrir nestas, escondidas, várias fortificações tipo bunker de artilharia de costa, e antiaérea, e casamatas alemãs do tempo da II Guerra Mundial, muito menos impressionantes que as da Ponta de Hoc na Normandia, mas apesar de tudo dignas de ser recuperadas e visitadas. São vestígios históricos e culturais, incontornáveis!

Estava feito o dia, tiradas as fotos, a cama esperava-nos.

segunda-feira, julho 13, 2009

Férias do Verão de 2009 em AC: 2ª Etape Biarritz- St Pée de Nivelle


2ªnoite St Pée de Nivelle

Acordados pelo remanso sol de céu azúleo. Eram para aí umas 7.30h já da hora local, ou seja 6.30h de Portugal…A adaptação ao “road lag” estava feita.

Depois do pequeno-almoço (que às vezes me trás a memória o mata bicho de velhos tempos) uma vista de olhos pelas notícias de televisão (que se capta melhor em espanhol) em que estavam na ordem do dia as Honduras, a gripe A1 e a morte de Michael Jackson.

Decisão de cockpit…seguir para comprar o almoço de moules (mexilhões) no Leclerc da zona dos Cinco Cantões, em Anglet e depois ala à praia dos Corsários na margem esquerda do Adour, a sul de Bayonne. Felizmente lá encontrei na livraria o livro das 1000 villages de França…um excelente fonte de informação editada pela Flammarion.

A praia estava excepcional. Maré vaza, ondas suaves de pequena rebentação, pouca gente, areal limpo, e foi aproveitar o resto da manhã com a AC bem estacionada, e gratuitamente, no parque reservado a Autocaravanas, dos Corsários (a tarifa de 8€ por 24h passaria aqui, também a ser cobrada a partir de 1 de Julho). Aliás ainda não havia vigilância das praias pois a época não começara ainda…

Então ao almoço foi mesmo... de moules e frites (estas, compradas no bar da praia) com o molho especial de natas, feito pela consorte (e eu com sorte!) mais uma garrafa de Riesling, cerveja sem álcool, baguette, queijo camembert, e uma “siesta” reparadora.

Depois, mais céu azulíssimo, nuvens ausentes, sol acalorado e por isso mais banho na praia, mais mergulhos, mais braçadas, mais passeata a pé ao longo da praia, com pouca gente ( as aulas só acabariam no final dessa semana).




Eram entretanto, 18h, e tomados os últimos banhos, de mar e de chuveiro da praia, a decisão acertada na hora foi…seguir para Ainhoa, no Pais basco (não vale a pena repetir o desvio feito para Sare, que julgámos decepcionante, até porque não fomos às grutas). Anihoa tem razões que justifiquem o desvio, uma Igreja estranha, com uma torre sineira com dupla escadaria, casas típicas bascas de portas semi-abertas, para a rua, mas lojas já fechadas às 19h. Há estacionamento e gratuito para AC, mas é proibido entre as 24h e as 8h…

“No problem”…..consultado pela qualificada consorte, co-piloto, gps, e ainda técnica documentalista, a biblioteca existente a bordo, a escolha seguinte recaiu em St Pée de Nivelle, área de autocaravanas junto a um lago. Excelente escolha!



Trata-se de uma represa ampla, classificada como "base de loisirs", com praia de areia, gaivotas e canoas de aluguer, parque infantil etc. Paisagem bem qualificada. Ambiente de eleição.

O parque das autocaravanas, vedado, custou-nos 4€, e ficamos estacionados com vista para o lago desimpedida, para jantar mais uma vez “in house” porque os 4 restaurantes deste local estavam todos fechados…mesmo em véspera de abertura da “saison”. Depois da janta, excelente passeata a pé, pelo perímetro do lago num fim de tarde calmo, sereno de temperatura, mas a subir, ao mesmo tempo que se acumulavam nuvens e até começar a chuvinhar.
Eram os “orages” do sudoeste a mostrarem-se, mas sem preocupações. A noite, de janelas abertas, decorreu em paz.

domingo, julho 12, 2009

Alenquer-Alaejos- Biarritz - Primeira etape de viagem Verão 2009 em AC.



1ª noite (Biarritz)


Do Alenquer Camping o wake up foi pelas 7h e deu-se saída no cockpit da semovente às 7.40, já o pequeno-almoço tomado e depois de uma noite com chuva.


Deixamos para trás o nosso vizinho da City Van quase estreada nessa ocasião, em silêncio. Depois foi rolar e rolar e rolar, sem pressas mas a um ritmo seguro e rápido, quantas vezes com o ponteiro a transbordar do limite imaginário dos 120Km/H.


As paragens foram mínimas….pouco depois da fronteira para atestar de gasóleo, depois para almoçar na AC numa sombra de caminho, antes de Tordesilhas, depois novamente na fronteira para França, para atestar novamente e fazer a média…cerca de 12L/100.








Chegamos a meta, área de serviço de Milady, em Biarritz, pelas 18.00h portuguesas…cerca de 10.50h de viagem sem problema e sem história.


Felizmente havia vários lugares vagos, afinal estamos a 28 de Junho…nada de congestionamentos ainda, e nem sequer estava ainda em vigor o pagamento, agendado para o princípio da época 1 de Julho. Estacionamos neste parque de autocaravanas fronteiro à praia…a tempo e horas de ir ao banho, com as águas tradicionalmente quentes pela corrente do golfo, que por ali passa, e que as ondas parecem até melhorar.


Excelente fim de tarde, e depois do banho de agua doce nos chuveiros da praia a segunda refeição do dia, na autocaravana previamente cozinhada. A seguir um passeio a pé pelos arredores com luminosidade até cerca das 22h, e uma temperatura amena.


Seguiu-se ainda a troca de impressões sobre o planeamento da viagem com a consorte, sentados na mesa da semovente. As ideias trazidas de Lisboa no seguimento de semanas e semanas de árduo trabalho, eram escassas mas firmes: despender cerca de uma semana de férias principalmente pelo sudoeste e França, em relax, ver locais que por lá já tínhamos andado em viagens anteriores (até do tempo do caravanismo) e visitar coisas novas.


Na realidade já estamos nos 32 anos consecutivos de férias em que pelo menos uma semana, ou dez dias, são passados em França! Assim foi restabelecido o plano geral…Sudoeste, País Basco, Médoc, travessia de barco para Royan, Ilha de Ré, Dordogne e Perigord, e saída de França pelo caminho de Santiago. Estabelecido o consenso, cama e o sono dos justos.


Antes, foi o anotar dos apontamentos de viagem no Moleskine de capa de oleado preto, e as despesas do dia. Estas foram elevadas, mas diluíveis nos dias seguintes…por exemplo, as portagens de auto-estrada, e o pleno de gasóleo feito na fronteira espanhol iria durar por mais de 1000Km, já que o depósito tem 100L e a média em passeio calmo só chega aos 9L/100K.


Ficam as fotos para mais tarde recordar e entretanto, partilhar com os conhecidos amigos e os amigos desconhecidos leitores deste Blog. Para além claro dos raiders de maus fígados e anónimos, do tipo dos que escrevem mensagens nas portas dos sanitários públicos…embora esta Newsletter esteja de portas entre abertas. ..a quem vem por bem, e de boa vontade...

sábado, julho 11, 2009

Relato de Viagem ao sudoeste de França e arredores Verão de 2009


Este relato de umas mini ferias...8 noites exactamente, entre o final de Junho e o início de Julho de 2009, são simultaneamente uma partilha de experiências positivas, e positivamente um convite e desafio aos autocaravanistas que nos lêem, ou dos que nos lêem e querem um dia ser também, autocaravanistas, nem que seja pelo aluguer (no País ou no estrangeiro) ou empréstimo de uma AC.

Daí o convite: vejam devagar estes slides, atentem nas legendas, e só depois vejam o texto: em primeiro lugar o desta introdução, e depois os que se lhe seguem por cada um dos dias de viagem, a mensagem implícita e expressa é só uma: Vale a pena sair do País para se conhecer melhor o que nos rodeia, e a nós próprios. Vale a pena ir até às Espanhas, vale a pena ir a França e mais além aonde a bolsa, o tempo, a companhia, o clima, as motivações nos levarem.

Não há que ter medo! nem de não se falar espanhol, ou francês, ou qualquer outra língua europeia, pois com gestos, com apontar de dedo...para um menú, para o prato do lado, para os produtos a comprar, e mais mímica adequada, mais uns please, merci, ciao, olá, yes, non, ajudados por GPS, mapas, e guias turisticos....quem tem boca vai a Roma!

Não há que ter medo de inseguranças, de preços altos, de surpresas desgradáveis de falta de lugar para a autocaravana estacionar, ou pernoitar. Se não é aqui e já, é decerto daqui a uma meia hora, e a mais uns poucos de KM.



Comecemos porém com uma séria advertência:

Convem preparar a viagem, o que não é nada o mesmo que planificar itinerários, com calendários e horários. O que se exige ao autocaravanista cuidadoso, é que esteja informado e que tenha planeado a viagem (nada de planificar), ou seja, que tenha reunido informação suficiente sobre os seus pontos de interesse, seja pela internet, seja ainda pelo método clássico das brochuras dos serviços de turismo das embaixadas, seja pelos guais de turismo e cultura em geral, e muito específicamente do autocaravanimo, seja ainda pelos blogs de viagens e de autocaravanismo. Vveja-se uma lista séria dos mais actualizados em:

http://www.cab-circulo.blogspot.com/

Depois, há que definir alguns cenários alternativos com a consorte ou co-piloto: dependendo do clima, do grau de satisfação que se for concretizando, de dicas de ultima hora, quantas vezes resultado de um encontro fortuito com outro autocaravanista on the road..., ou melhor, on the parking..validado em plenário logo ali, no cockpit da semovente!

O que é verdade, é que o orçamento não é problema quando comparado com os termos portugueses. Desta feita, o gasóleo comprou-se a 97 cêntimos (supermercado Carrefour em França) ou mesmo a 91,5 cêntimos (no Gildo em Espanha junto à Fronteira de Vilar Formoso) quando em Portugal estava na auto-estrada a 1.05/1.06!

Refeições houve para dois, em restaurantes, por menos de 20€, e a mais cara saiu por 35€. Quanto às refeições tomadas na autocaravana, como e calcula ficam por uma fracção dos preços de restaurante mais em conta...Mas nada de cozidos à portuguesa, pézinhos de coentrada ou feijoadas...

Também as entradas em museus ou outros locais de cultura e turismo oscilaram desde os gratuitos...até entre 2,5€ (museu do Vinho e da Batellerie em Bergerac) e os 12€ da viagem de barca na descida da corrente de Huchet (Lago Leon, nas Landes).

Finalmente uma nota sobre acessórios, sobressalentes, consumiveis e até reparações pontuais: Não há que ter receios de faltas de apoio, pelo menos em França, existem numerosos concessionarios de autocaravanas com oficinas de serviço, postos de venda de acessórios (baterias por exemplo!) e ainda exitem várias garagens de desempanagem especializadas em autocaravanas, e seus equipamentos: boilers, frigorificos, parabólicas, fogão, sistema eléctrico etc. Onde encontrar? no Guia editado este ano do Petit Futé sobre autocaravanismo, há a indicação em cada região ou percurso deste tipo de serviços...preço do guia 12€!

Relativamente ao estacionamento e pernoita de autocaravanas, a oferta é vasta quer em Espanha e principalmente em França, e há disponiveis, desde as situações gratuitas ate às pagas, onde verificámos preços desde 4€ até ao máximo de 9 €...claro que estamos perante países com tradição positiva de clubismo autocaravanista, e de uma consciência política do autocaravanismo quer a nível governamental, quer autárquico, e que só agora encontrou eco em Portugal, com o Projecto de Lei nº778/X, infelizmente vetado por uma maioria para...lamentar.

Ora, desta vez e em resumo, que será desenvolvido em posts seguintes, temos....

Saída do Alenquer Camping na manhã de domingo dia 28 de Junho. Na véspera tivemos oportunidade de lá jantar e participar numa Tertúlia do Bar do Além muito especial - de evocação ritual do fogo de São João por ocasião do Solstício (vejam só os intressados) em:

http://bardoalem.blogspot.com/2009/06/cerimonia-de-evocacao-do-solsticio-do.html

Regresso segunda feira dia 6 de Julho, a Alenquer saídos de St. Jean de Pied de Port. Foram pois 8 noites...e 9 dias de viagem.

KM feitos 3.700, custo em gasóleo, aproximadamente 370€.

- médias de consumo entre 9L/100 ( media ate 90Km/H até 12L/100 (media de cerca de 120Km/H, e com velocidade estabilizada de 100/110Km/H cerca de 10.3L/100.

dormidas sempre fora de campings (aconteceu desta vez, e por mero acaso...)

- area AC de Milady (Biarritz) gratuita até final de Junho

- area AC de St Pée de Nivelle - 4 euros (12 h)

- area de AC de Soulac s/ Mer, gratuita

- area de AC do Camping Campeole, Rivedoux, Ilha de Ré, 9€ (fora do camping)

- area de AC de Les Eysies- 4 euros

- area de AC de Moissac, gratuita

- area de AC do Lago Leon- 8 euros

-area de St. Jean de Pied de Port- 5 euros

Quanto ao orçamento total...fica aqui a nota que por cada um dos 9 dias de andamento em autocaravana se ficou em média, com a despesa a olhómetro, de 100€. Por isso, cada um tirará as suas conclusões...esta factura pode ser bem mais elevada se a escolha da velocidade, dos trajectos de portagem em auto-estrada, as entradas de museus e saídas para refeições fora, se avantajar em número e preço. Pelo contrário, se mais refeições forem cozinhadas in house, mais estradas nacionais se utilizem e a velocidade moderada, menos museus visitados, e até com mais dias de estadia, possam redundar numa factura de orçamento mais baixo.

A todos...boas voltas e reviravoltas, inclusivé de neurónios, sempre de semovente, e na companhia das respectivas consortes. E que as férias sejam reparadoras para quem as mereceu!

Links para os posts seguintes:

Introdução, reusmo e plano de viagem

http://camping-caravanismo-e-autocaravanismo.blogspot.com/2009/07/relato-de-viagem-ao-sudoeste-de-franca.html

1ª etapa (Alenquer-Alaejos- Birratitz)

http://camping-caravanismo-e-autocaravanismo.blogspot.com/2009/07/alenquer-alaejos-biarritz-primeira.html

2ª etapa (Biarritz- Anglet-Ainhoa-St Pée de Nivelle)

http://camping-caravanismo-e-autocaravanismo.blogspot.com/2009/07/ferias-do-verao-de-2009-em-ac-2-etape.html

3ª etapa (St.Pée de Nivelle- Cadillac-Médoc- Soulac s/ Mer)

http://camping-caravanismo-e-autocaravanismo.blogspot.com/2009/07/ferias-de-verao-2009-3-etape-entre-st.html

4ª etapa (Soulac s/ Mer-Royan-Rochefort-Ilha de Ré)

http://camping-caravanismo-e-autocaravanismo.blogspot.com/2009/07/ferias-de-verao-2009-4-etape-entre.html

5ª etapa (Ilha de Ré-Saintes-Angoulême-Ribeirac-Bergerac-Les Eysies de Tayac)

http://camping-caravanismo-e-autocaravanismo.blogspot.com/2009/07/ferais-verao-20095etape-da-ilha-de-re.html

6ª etapa (Les Eysies de Tayac, La Roque-St Cirq Lapopie, Moissac)

http://camping-caravanismo-e-autocaravanismo.blogspot.com/2009/07/ferias-verao-2009-6-etapa-de-eysies.html

7ª etapa (Moissac-Agen- Cadillac- Bordeaux-Lac Leon)

http://camping-caravanismo-e-autocaravanismo.blogspot.com/2009/07/ferias-verao-2009-7-etapa-de-moissac-ao.html

8ª etapa (Lac leon-Anglet-St Jean Pied de Port)

http://camping-caravanismo-e-autocaravanismo.blogspot.com/2009/07/8-etapa-ferias-verao-2009-lago-leon-ate.html

9ª e ultima etapa (St Jean Pied de Port-Puente de la Reina, San Domingo de Calzada- Alenquer)

http://camping-caravanismo-e-autocaravanismo.blogspot.com/2009/07/9-etapa-ferias-verao-2009-regresso-de.html

sexta-feira, julho 10, 2009

O Autocaravanismo nas actas da Assembleia da República da sessão de dia 25 de Junho sobre o projecto 778/X



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O Sr. Presidente. Srs. Deputados, vamos retomar a apreciação do projecto de lei n.º 778/X (4.ª) — Cria o regime relativo às condições de circulação, parqueamento e estacionamento de autocaravanas (PSD). Tem a palavra a Sr.ª Deputada Alda Macedo.


A Sr.ª Alda Macedo (BE): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: O projecto de lei que o PSD submete hoje à apreciação do Parlamento é marcado por uma margem significativa de ambiguidade em relação aos resultados que produz. Se é certo que este projecto de lei reconhece as especificidades próprias do autocaravanismo que resultam de uma atitude diferenciada deste segmento de actividade de turismo face a outras com as quais tem áreas de cruzamento mas também áreas de distinção, reconhecendo as especificidades desta actividade turística — uma atitude diferenciada, uma atitude própria —, o projecto de lei, na verdade, não vai ao encontro da resolução dos problemas que daí resultam.


O Sr. Presidente: — Srs. Deputados, peço que criem as condições para a Sr.ª Deputada oradora poder continuar a proferir a sua intervenção. Sr.ª Deputada, pode continuar.
A Sr.ª Alda Macedo (BE): — Obrigada, Sr. Presidente. Retomando o que estava a dizer, se é verdade que se reconhece as especificidades que resultam de uma atitude diante da actividade de lazer que é o turismo, o projecto de lei não vai totalmente ao encontro do que resulta da apreciação dessa especificidade. Assim, parece-nos que é preciso um amadurecimento legislativo que ainda não está presente neste diploma. Devo dizer, Sr. Deputado Mendes Bota, que o proposto no artigo 15.º deste vosso projecto de lei está mal pensado, mal equacionado e acarreta um risco acrescido porque aponta para a necessidade de revisão dos planos de ordenamento da orla costeira (POOC), embora tal necessidade não exista enquanto tal. O que existe é a necessidade de os municípios, do ponto de vista das respectivas opções de ordenamento territorial, integrarem, também aí, uma vertente de resposta às necessidades específicas do autocaravanismo.Prever uma alteração dos referidos planos de ordenamento da forma como está contemplada no artigo 15.º do vosso projecto de lei, quando, na verdade, hoje, o que é preciso é que os mesmos sejam mais rigorosos no sentido da delimitação e da classificação das áreas costeiras, atendendo à gravidade da ameaça que sobre elas impende, decorrente do que são as perspectivas relativamente às alterações climáticas, é um risco face ao que é a necessidade de precaução no que se refere à orla costeira, conforme os diferentes graus de gravidade da ameaça a que está sujeita. Assim, devo dizer que, aparentemente, a intenção é generosa mas resulta mal do ponto de vista do que aqui está consagrado. Portanto, o Bloco de Esquerda não acompanha o PSD neste projecto de lei, reconhecendo, no entanto, a necessidade de um complemento legislativo em matéria de regulação e, sobretudo, de providenciar no sentido de serem garantidas às pessoas ligadas a esta actividade de autocaravanismo infra-estruturas de suporte adequadas às suas necessidades muito específicas. Aplausos do BE.


O Sr. Presidente: — Tem a palavra o Sr. Deputado José Soeiro, para uma intervenção.


O Sr. José Soeiro (PCP): — Sr. Presidente, Srs. Deputados, este projecto de lei tem um preâmbulo que aponta no sentido da valorização de uma forma de turismo que tem vindo a aumentar e que, naturalmente, merece a nossa atenção. O preâmbulo do diploma reconhece esta forma de fazer turismo como amiga do ambiente e valorizadora do comércio de proximidade. Este é um turismo com preocupações ambientais, de mobilidade, o que, aliás, é referido no preâmbulo do diploma em que se diz mesmo que obstar a este tipo de turismo seria contrariar o interesse económico do sector e, portanto, do País. Partilhamos inteiramente este conjunto de considerandos. Se o corpo do diploma correspondesse a esse conjunto de ideias que valorizam uma forma de fazer turismo que todos reconhecemos, não teríamos qualquer dificuldade em apoiar e votar a favor. Acontece que o corpo do diploma vai exactamente no sentido inverso de alguns dos aspectos reconhecidos no preâmbulo. É que enquanto, no preâmbulo, se reconhece que esta forma de fazer turismo pressupõe precisamente a mobilidade quase constante dos seus praticantes, então, não vemos motivo para um conjunto de artigos quase todos limitativos dessa mobilidade. Isto é, o projecto de lei nega o que, no preâmbulo, se reconhece como uma forma natural de fazer turismo. Portanto, parece-nos que há aqui alguma incongruência. De facto, se atentarmos no corpo do diploma, verifica-se que o exercício do autocaravanismo só é permitido de uma certa maneira, só podem permanecer x tempo, têm de sair ao fim de x horas. Parece-nos, pois, muito limitador o que aqui é estabelecido, sobretudo quando se reconhece que, actualmente, o nosso país não tem infra-estruturas em condições de dar resposta a este tipo de turismo e, também, porque a realidade noutros países demonstra que é através da intervenção do poder local que têm sido encontradas as respostas adequadas para o desenvolvimento deste segmento do turismo. Neste sentido, não nos parece adequado procurar responder de forma tão fechada aos desafios que se colocam perante a liberdade de que hoje gozam os autocaravanistas para praticar este tipo de turismo. O Partido Comunista não acompanha, pois, a proposta do PSD e irá votar contra este projecto de lei. Aplausos do PCP.


O Sr. Presidente: — Para uma intervenção, tem a palavra a Sr.ª Deputada Isabel Jorge.


A Sr.ª Isabel Jorge (PS): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: O autocaravanismo é uma modalidade que teve o seu início na Europa nos princípios da década de 60, com a adaptação de antigos furgões e autocarros, de forma mais ou menos artesanal, de modo a permitir que, no seu interior, para além de se pernoitar, fosse possível viver — e aqui entende-se a expressão «viver» em sentido lato. Em Portugal, o autocaravanismo tem tido forte incremento e adesão, com uma acentuada melhoria na qualidade dos veículos, no design e na funcionalidade. Estima-se que, em Portugal, esta forma de turismo itinerante rondará os 5000 utilizadores. Compreendemos, assim, a filosofia deste diploma que pretende regulamentar o estacionamento de autocaravanas em zonas urbanas não destinadas especificamente a este fim. Mas, perdoem-me, Srs. Deputados, parafraseando o velho professor que apreciava o trabalho do aluno, também nós dizemos que «este diploma tem ideias boas e ideias originais, só que as boas não são originais e as originais não são boas». Senão, vejamos. As autocaravanas não são senão veículos e as condições de circulação, paragem e estacionamento dos mesmos já se encontram definidas no Código da Estrada. Acresce, ainda, que as condições de estacionamento de veículos nas localidades são competência das autarquias e não deste Parlamento e existe um princípio comummente aceite, que é o princípio geral do direito rodoviário sobre estacionamento na via pública ou equiparada, segundo o qual o estacionamento é permitido a não ser que exista sinalização que o proíba ou restrinja, e não ao invés, como decorre do projecto de lei que estamos a apreciar. Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, as incongruências não ficam por aqui. Só a título de exemplo: as portarias conjuntas são sempre aprovadas pelos ministros; a expressão «sinalética» não existe, a expressão do Código da Estrada é «sinalização»; o regulamento de sinalização e as suas alterações competem ao Governo e não à Assembleia da República. Sem mais delongas e do nosso ponto de vista, o actual ordenamento jurídico já contempla todas as alegadas inovações propostas, resultando inequívoco que, neste projecto de lei, mais não se vislumbra senão uma enorme confusão entre «estacionamento», regulado no Código da Estrada, e «acampamento», também regulado em diplomas já aludidos até pelo Sr. Deputado, nomeadamente os Decretos-Lei n.os 39/2008 e 310/2002 e a Portaria n.º 1320/2008, de 17 de Novembro. Assim, e pelo exposto, o Partido Socialista votará contra o projecto de lei n.º 788/X. Aplausos do PS.


O Sr. Mendes Bota (PSD): — Era de esperar!


O Sr. Presidente: — Tem a palavra o Sr. Deputado Nuno da Câmara Pereira.


O Sr. Nuno da Câmara Pereira (PSD): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, é só para chamar a atenção e perguntar aos Deputados do PS se, por acaso, sabem qual é a diferença entre uma lesma e um caracol. É, precisamente, a diferença entre a precariedade ou não da segunda habitação e, se calhar, andar com esta «ao colo» e deixá-la para ir fazer um passeio turístico… Há uma grande diferença: o autocaravanismo nada tem a ver com o caravanismo, absolutamente nada! Os parques de campismo nada têm a ver com os parques para autocaravanas. Um caracol nada tem a ver com uma lesma. O caracol transporta a sua casa para todo o lado, a lesma deixou no parque de campismo a sua casca grossa e foi conhecer outras coisas — esta é a diferença. Por outro lado ainda, o que agora propomos seria talvez uma maneira útil de fazer chegar o turismo a zonas recônditas do País que não têm empreendimentos turísticos nem recursos para tal. Se calhar, é uma forma mais expedita de fazer turismo andar com a casca grossa às costas.


O Sr. Presidente: — Tem a palavra o Sr. Deputado Abel Baptista.


O Sr. Abel Baptista (CDS-PP): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, a Sr.ª Deputada Isabel Jorge, do Partido Socialista, deu-nos uma informação extremamente interessante. Disse que o autocaravanismo é importante, até está em crescimento, é uma actividade a considerar mas, apesar de não estar regulamentada, «deixamos estar como está, não vamos fazer nada. Sabemos qual é o problema, mas não actuamos sobre ele».É caso para perguntar, Sr.ª Deputada Isabel Jorge: então, onde está a proposta do Partido Socialista para resolver o problema? O que é que vamos fazer? Como vamos resolver o problema da pernoita? Como vamos resolver o problema de encontrar áreas de serviço para tratar de questões inerentes ao funcionamento e à utilização de autocaravanas — fornecimento de água, despejo de dejectos? Se estas questões não estão regulamentadas, como vamos fazer? Vamos deixar isto ao critério de quem e de que forma? Diz que está regulamentada a questão do estacionamento. Então, por que é que grande parte das autarquias, provavelmente de forma ilegal, proíbe o estacionamento das autocaravanas?


A Sr.ª Isabel Jorge (PS): — É um problema de fiscalização!


O Sr. Abel Baptista (CDS-PP): — Não é um problema de fiscalização, é um problema de legislação, de regulação, e que deveria ser encarado. Lamentamos que o Partido Socialista queira deixar ficar tudo como está, na actual anarquia, sem qualquer resolução, muitas vezes com questões ambientais pelo meio, com procedimentos que são altamente prejudiciais para o ambiente, para os autocaravanistas e para o próprio Estado, que, de forma irresponsável, deixa ficar tudo como está, que é o que o Partido Socialista agora vem propor. Aplausos do CDS-PP.


O Sr. Presidente: — Tem a palavra o Sr. Deputado Hugo Velosa.


O Sr. Hugo Velosa (PSD): — Sr. Presidente, estava a tentar inscrever o Deputado Mendes Bota…


O Sr. Presidente: — Sim, sim, com certeza. E para o Deputado Mendes Bota, 15 segundos são uma eternidade!… Tem a palavra.


O Sr. Mendes Bota (PSD): — Sr. Presidente, é só para dizer à Sr.ª Deputada Alda Macedo que o que pretendemos não é alterar os planos de ordenamento da orla costeira. Pretendemos que haja uma pequena alteração no regulamento, de forma a permitir que nos parqueamentos que estão previstos nos POOC haja, pelo menos, uma área onde as auto-caravanas possam pernoitar, o que é literalmente proibido. Em relação às intervenções do PCP e do Partido Socialista, lamento que tenham feito tantas críticas e não tenham apresentado qualquer proposta construtiva. Sabem que existem problemas, não somos nós que os inventamos, dizendo que a legislação é omissa, são os autocaravanistas e o movimento associativo que o dizem e que requisitam a vontade legislativa deste Parlamento para que haja uma legislação que cubra essas omissões, e os senhores estão contentes com o estado actual, com a forma como são tratados os autocaravanistas, que são escorraçados, pois não há alternativas. Há uma coisa que é certa: não podemos proibir, pura e simplesmente, sem ter uma alternativa e não podemos fechar os olhos ao que se passa lá fora. Em toda a Europa comunitária existe regulamentação, existe legislação e Portugal continua a ser, também aqui, uma infeliz excepção. O Grupo Parlamentar do Partido Socialista, sempre com uma postura de «cócoras» perante um Governo que, alertado há tempos por esta Assembleia, não tomou as medidas necessárias ao autocaravanismo, pensa que está tudo muito bem. O Código da Estrada resolve tudo!… Mas, digo-vos: os senhores é que estão muito mal! Vozes do PSD: — Muito bem!


O Sr. Presidente: — Está concluído o debate deste projecto de lei e, assim, também a nossa sessão de hoje.

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